Fogo Nas Entranhas
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Back to the old house…

Queridos.

Depois de passar um tempo feliz neste condomínio decidi voltar às origem ao bom e velho WORDPRESS.

Portanto, daqui em diante estou novamente em : www.fogonasentranhas.wordpress.com

Não se animem, no entanto, continuo escrevendo quando dá tempo e quando dá na telha…

Afinal, um blog serve pra isso, certo?

Beijos e encontro vocês lá

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Pequenas verdades

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Unplug yourself

Semanas atrás aconteceu o que talvez tenha sido o primeiro suicídio online que tivemos notícia no Brasil.

Uma mulher de 33 anos, mãe de uma criança de 4, separada, ótima profissional, MBA em Harvard, bem de vida e, por um lúgubre acaso, ex-funcionária da empresa em que trabalho, postou sua última e derradeira mensagem através do site de relacionamentos Twitter, despedindo-se do ex-marido, dos amigos e deste mundo cruel, suicidando-se logo depois, tomando uma dose cavalar de remédios e enterrando uma faca no peito.

Parece uma adaptação barata de um romance de Nelson Rodrigues para os tempos de internet, mas não é não, meu povo.

É verdade. Infelizmente.

Isso me fez pensar, é claro, em uma torrente de coisas, idéias, teorias, conjecturas, conclusões e tudo me levou a uma única dedução : ela era sozinha. E isso, encabeçando uma outra cadeia imensa de fatos, sentimentos e  escolhas a levou a tomar esta trágica decisão.

Grande coisa. Todos somos sós, não é mesmo? Todos trazemos dentro de nós certa dose de solidão. Ela é necessária para que alcancemos o tão almejado e delicado equilíbrio emocional, inda mais nesses tempos doidos.

Acontece que esses tempos doidos dos quais tanto falo, justamente esses em que vivemos, onde mais do que nunca temos pleno e total acesso à qualquer tipo de informação e onde ferramentas que colaboram para a convivência, relacionamento, discussões e colaborações são cada vez mais usadas pelas pessoas, talvez figurem entre os tempos mais solitários que a humanidade já viveu.

Por incrível que pareça, quanto mais nos relacionamos virtualmente, menos isso acontece na vida real.

O fato da moça ter comunicado seu SUICÍDIO via Twitter foi a maior e mais triste prova disso.

E quanto menos reais os relacionamentos, mais fúteis, efêmeros e inúteis eles serão.

E mais solitários seremos.

Obviamente que, você que me lê nesse instante, deve saber que não é preciso estar desacompanhado para senti-se só. Estar, ficar e sentir-se sozinho pode ser uma experiência prazerosa e produtiva, tudo dependerá do controle do indivíduo sobre a própria solidão. E aí entramos em outra esfera, mais densa, poética e etimológica, a que separa solidão e solitude.

No português o significado das duas palavras ainda se embaralham, mas em inglês a definição de ambas é bem esclarecedora: solidão é estar só por força das circunstâncias. É sentir-se só, isolado, desacompanhado, abandonado. Pode também ser descrita ou sentida como falta de identificação compreensão ou compaixão alheia. ”Loneliness”, seria  a palavra inglesa que mais se aproxima de nossa conhecida ”solidão”.

Já solitude é o estado de se estar sozinho e afastado das outras pessoas, e geralmente implica numa escolha consciente, onde optamos por ouvir o silêncio de nossa alma, pela calma, pela continência de sentimentos, uma espécie de meditação, isolamento da realidade, mas com finalidade positiva. É o inusual e pouco usado/conhecido “aloneness”.

Assim, estar “alone” e “lonely” são duas condições diferentes. E talvez nossa vítima sofresse de ambas. Uma em razão da outra. Um reflexo de nossos tempos.

Talvez ela simplemente quisesse fugir, mas hoje em dia, nem isso mais é possível. Uma vez na internet, você pode ser encontrado, aonde quer que esteja.

E aí recorre-se ao escapismo. Que em grande escala acaba gerando alienação, perda de foco, falta de auto-conhecimento, ignorância, intolerância com o próximo e…solidão.

Outro dia, lendo uma pesquisa de produto para uma campanha  fiquei estarrecida com estatísticas que apontavam que 60% crianças brasileiras na faixa etária de 7 a 11 anos usavam ferramentas sociais online e games para “escapar” e “aliviar” as pressões do dia-a-dia. (me dou o direito de não citar nomes, nem da campanha nem do orgão de pesquisa)

60%…CRIANÇAS. Pressões do-dia-a-dia. Meudeusdoceu, se crianças de 7 a 10 anos precisam escapar da dura realidade que as cerca ( e eu fico aqui tentando imaginar qual seja) o que nos resta?

Eu trabalho cerca de 10h na frente do computador. Tenho casa, família e tento, a todo custo, manter uma vida social saudável. Eu só consigo isso me desconectando. Só me disciplinando a NÃO ligar o computador quando chego em casa. A não ficar tentada a mandar um e-mail, mais asséptico, muito mais rápido e indolor do que falar com meus amigos ao telefone, do que marcar um encontro.

Fiquei chocada com a morte brutal da garota. E muito mais, com a forma como foi anunciada. Um bilhete suicída virtual. O que pensaram seus amigos, “seguidores” e afins, quando leram a nota? Que ela estava brincando? Que estava sendo sarcástica? Que estava apenas se despedindo frugalmente, depois de um dia excruciante de trabalho?

O que se passa na cabeça deles agora?

Poderiam ter feito alguma coisa? Como não perceberem isso antes? Como poderiam ter impedido tal tragédia?

Não, nada poderia ter sido feito. Não virtualmente.

Apenas pessoalmente.

Mas isso, de se relacionar de verdade dá muito trabalho, não é mesmo?

Desconectar-se é preciso.

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Eu não consigo. Não consigo ser a mulher que o mundo pede que eu seja. Eu não consigo nem ao menos ser a mulher que eu gostaria de ser. Não consigo ser apenas uma mulher somente. Não consigo ser mulher o bastante.

Não consigo deixar de desejar, não consigo deixar de lutar, não consigo deixar de espernear comigo mesma e com o mundo. Eu grito: “não tem que ser assim”! para a multidão monocromaticamente feliz que se aproxima e me pisoteia, impassível. E ainda me surpreendo.

Onde está a tal da velhice, afinal? Ela bem que poderia chegar e acabar com tudo…talvez esteja batendo à porta e eu me fingindo de surda.

Eu tive um pesadelo e ele durou 33 anos, 8 horas e 28 minutos.

E então, eu acordei.

E vi que talvez fosse melhor continuar dormindo.

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Rose

Nunca falei disso aqui, mas há alguns anos, num desses intensos períodos de questionamentos existenciais que me acometem sazonalmente, encasquetei de estudar teologia e me envolvi com um grupo de voluntários de uma ordem religiosa.

Assim como a ordem dos Franciscanos, suportavam (na total abrangência significativa da palavra) marginalizados pela sociedade: mendigos, adictos, prostitutas, travestis, membros de tribos urbanas e quetais.

Depois de um período de treinamento teórico, estudando desde abordagem até defesa pessoal, saímos finalmente a campo. No começo foi bem difícil. Fiquei assustada. Você chega com uma idéia idiota e ingênua de que essas pessoas estão desesperadas por atenção, mas qual! Fomos xingados, achincalhados, vaiados. Fomos alvo de diversos objetos, desde frutas a sapatos de salto vagabundos e garrafas vazias de pinga. Foi assim sucessivas vezes.

Queriam-nos longe dali. Afastávamos os clientes, diziam as putas e os travestis. Afastávamos os compradores, diziam os traficantes. Chamávamos a atenção dos transeuntes e principalmente da polícia, que rondava as cercanias de tempos em tempos, “ para a nossa segurança”, diziam. E isso era ruim para os comuns àquela região.

 Pensei bastante em desistir, mas, apesar do paralelo não ser lá muito feliz, sentia como se estivesse conquistando a confiança de um animal machucado: primeiro as mordidas e, até ele entender que você não quer seu mal, vai um tempo.

E levou realmente um tempo, até que eu conseguisse conversar decentemente com algumas pessoas ali sem que ambas as partes se sentissem ameaçadas.

Fiquei cerca de um ano mais ou menos, frequentando a cracolândia e a região da Estação da Luz duas vezes por semana, conversando com prostitutas, travestis, drogados, ajudando com doações de roupa, remédios, literatura, o que fosse.

Mas, o que mais precisavam, por mais incrível e piegas que pareça, era de amor e atenção.

Conheci figuras interessantes. Um mendigo que havia viajado o mundo, perdido tudo e falava inglês e francês fluentemente, uma prostituta que se orgulhava de ter comprado uma casa própria e pago faculdade para os filhos com a prostituição, uma “família” de travestis (dois irmãos e um pai), um pastor que adorava pregar em prostíbulos, um traficante que possuía uma bala de revólver perdida em seu corpo e muitas crianças que de crianças já não tinham mais nada. Eram velhos em corpos infantis. Haviam tido a inocência arrancada, numa espécie de estupro emocional. A quintessência da tristeza.

Todos eles, sem exceção, adoravam conversar. Adoravam falar, falar, falar. Quase não me preocupava em replicá-los, apenas ouvia, ouvia, ouvia atentamente, ora sorrindo, ora com um gesto, uma onomatopéia que sugerisse interação e atenção.

Foi um exercício pra mim, uma faladeira compulsiva. Foi um exercício em todas as esferas possíveis e imagináveis de minha diminuta existência, aliás.

Um dia fui convidada para uma festa de aniversário que dois travestis fariam para uma colega. Ela estava completando 24 anos de vida e a festa seria na casa deles.

Fiquei reticente em ir. Frequentar a casa já seria um passo significativo no relacionamento e, sinceramente, não sabia se estava preparada para tal. Por outro lado, identifiquei o convite como sendo um gesto de consideração e carinho e resolvi aparecer, munida de presente (comprei uma camiseta com os dizeres “I’m a Star!”, ela adorou!) e violão para animar a festa. Os outros dois transex me levaram até o prédio onde moravam, onde todos estavam nos esperando para cantar parabéns.

Quando avistei o prédio, respirei fundo. Tratava-se do esqueleto de um prédio inacabado, somente a estrutura, completa e inconsequentemente habitada, onde tapadeiras de madeira e restos de material de construção faziam as vezes das paredes. Uma verdadeira favela vertical. Fui em frente.

Enquanto subia os primeiros degraus atenta, com medo de que algum objeto não identificado atingisse minha cabeça e que a escada onde estava pisando simplesmente se esfarelasse, fui observando o que parecia ser, para mim, até então, o verdadeiro retrato da miséria humana.

Algumas pessoas tinham espaços delimitados, outras, no entanto, habitavam em áreas comuns, como corredores. E neles, bebês e crianças de colo choravam, mulheres cozinhavam em fogareiros no chão e homens assistiam televisão, como se estivessem no conforto de uma sala de estar. Famílias de 5, 6, 7 pessoas habitavam espaços de cerca de 50 metros quadrados, a rede elétrica e o sistema hidráulico eram mambembes e precários. Alguns possuiam chuveiros, e os que não, pagavam uma taxa diária aos vizinhos para usufruir de seu banheiro e banhos quentes.

Era surpreendente, mas havia um síndico, que atuava mais como juiz de paz da comunidade do que qualquer outra coisa e tentava resolver problemas do tipo: “essa mulher fica trazendo homens aqui e transando a noite inteira, não deixa a gente dormir em paz!”  ou “Ela roubou o meu frango, por isso eu matei o gato dela” - isso tudo na frente das crianças.

Varais eram estendidos à revelia. Era preciso abrir caminho entre as roupas para conseguir seguir em frente.

Fui subindo e subindo e percebi que haviam verdadeiros apartamentos totalmente acabados, aqui e ali. Com portas de madeira envernizadas, campainhas e tapetes com dizeres: “Welcome”.

“Ah, esses daí são dos traficantes, ninguém mexe com eles” - me disse o transex. Resolvi ser sábia e fazer a mesma coisa.

Chegamos finalmente ao apartamento, um quadrado apinhado de móveis e gente. Havia apenas uma mesa de jantar e um módulo de armários no que parecia ser a cozinha. Não me lembro de ter visto pias ou algo do tipo. Sem geladeiras e fogão também. Não havia qualquer tipo de sofá, só beliches. Cerca de 3, se não me engano, o que tornava o local ainda mais claustrofóbico. Guarda-roupas também eram inexistentes. As roupas jaziam dobradas em malas, no chão e embaixo das camas.

Ali moravam 6 transex, num local onde duas pessoas já se sentiriam acuadas. Todos eles vindos do Nordeste; dois do Maranhão, dois da Bahia, um da Paraíba e outro do Ceará.  Pagavam 300 reais pelo aluguel do “apartamento”, mas me contaram que haviam outros ali que chegavam a 700 reais. Fiquei pensando que tipo de pessoa moraria num local daqueles tendo condições de pagar 700 reais num apartamento.

Me lembrei dos traficantes e juntei os pontos. Mais do que uma casa, aquele local era um verdadeiro esconderijo.

Fui pedindo licença em meio ao amontoado de gente na tentativa de dar os parabéns ao aniversariante e de ter a chance de finalmente entregar-lhe o presente.

E o quadro com o qual me deparei foi talvez o mais chocante que vi até então.

O aniversariante estava sentado em sua cama, recostado em travesseiros e seu rosto, ainda hoje, não consigo encontrar palavras para descrevê-lo.

Fiquei ali parada, com o presente nas mãos, mas não me contive e perguntei, desesperada o que havia acontecido.

Ela havia acabado de sair do hospital. Na noite anterior havia sido espancada por dois policiais que a abordaram na rua com a ameaça de levá-la presa por prostituição.

A barganha foi feita em troca de sexo. Para não levá-la presa, os dois policiais exigiram praticar sexo no transex, o estupraram com o cassetete e depois bateram nele até transfigurá-lo. Seu rosto era uma massa disforme de carne e hematomas. Eu só conseguia identificar a boca porque essa ainda mexia, apesar de faltar alguns dentes.

O transex tinha silicone industrial no corpo e este havia se deslocado em verdadeiras bolotas espalhadas pela extensão de sua pele.

Fui arrebatada dali. Parecia estar no inferno. Apesar disso, todos conversavam alegremente e bebiam refrigerante. Um outro disse que aquilo era comum, que eles eram “vaso ruim” e não quebravam. Comecei a ficar sem ar, dei-lhe o presente e estava prestes a inventar uma desculpa para sair correndo dali, mas senti sua mão na minha e aquilo, de alguma forma, me trouxe de volta à realidade.

Ela sorriu a boca desdentada e o rosto irreconhecível e disse ter gostado muito de eu ter ido ao seu aniversário. Disse que minha presença era importante e que ela estava ansiosa por me apresentar às amigas.

Elogiou minha voz  para as colegas e pediu para que eu cantasse uma canção. Eu enrolei, disse que depois eu cantaria. Na verdade me senti constrangida e pequena ali, incapaz, indefesa, covarde, fraca. Iria começar a chorar se cantasse e não queria isso.

Depois de um tempo razoável, decidi finalmente que precisava ir. Dei-lhe um abraço, pedi para que se cuidasse.

Nunca mais a vi. Nunca mais voltei.

Nunca mais fui a mesma.

Estou escrevendo finalmente isso pois toda vez que me deparo com alguma situação de miséria penso em todos com quem convivi ali. Não consigo deixar de pensar neles.

Seu nome era Rose. Na verdade era Robério ou Rogério, não me lembro bem, mas ela gostava que todos a chamassem de “Rose”.

Era alta, encorpada, cabelos longos pretos encaracolados, sorriso fácil e vaidosa.

E eu espero, sinceramente, que ela esteja bem.

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Desejo, vontade e prática

Trabalhando demais da conta. Este blog está praticamente abandonado. Minha vida social idem.

Preciso ter disciplina. Afinal, perco tempo dormindo da 00h às 6, não é mesmo?

Queria postar algo que li, dia desses e que fez muito sentido pra mim: Muitas vezes desejamos muito algo, mas não temos vontade de fazer esse algo.

Existe uma diferença crucial entre VONTADE e DESEJO: O desejo é dado pela psique, libido, biologia - é um fato fisiológico, natural.

Já a vontade é construída pela consciência, disciplina, interação - é um fato social.

Educação portanto, é a arte de construir vontades.

(Vera Maluf)

Como diria a galera do Information Society (que virá ao Brasil mês que vem e; fato que denuncia minha idade) - Think about it.

Beijos, saudades

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O pobre menino rico

Em 1985 eu tinha 9 anos de idade já possuía o disco mais vendido do mundo, sabia todas as suas letras e coreografias. Treinava em frente ao espelho. Até apresentei algumas no colégio.

Ontem, dia 25 de junho de 2009 o cantor e autor do mesmo disco, Thriller, esse que marcou minha infância e que, de uma forma ou outra despertou meu gosto pela música negra, faleceu em decorrência de uma parada cardio-respiratória em Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos da América, seu país.

Não pretendo fazer mais um post sobre a trajetória de Michael Jackson, menino prodígio e problemático da família de muitos irmãos e que foi maltratado e forçado pelo pai a trabalhar no showbusiness, perdendo assim, a infância e a inocência.

Vocês vão ser soterrados por posts e reportagens do tipo. Na internet, na TV na mídia impressa. …

Eu só queria dizer que, claro que o impacto de sua morte me atingiu, mas, de alguma forma, foi suavizado pelos longos anos que nos mostraram sua franca decadência.

Comecei a lamentar por MJ quando surgiram os primeiros boatos sobre seu envolvimento com pedofilia, seus discos cada vez piores, mal produzidos, suas esquisitices e declarações infelizes.

Percebi que um dos homens mais talentosos e ricos do mundo era total e completamente infeliz.

Que mesmo sendo aclamado como rei do pop, tendo a marca de maior vendagem de discos do mundo, ele não se sentia apropriado, amado e aceito.

Talvez não pelas pessoas que importavam para ele. Sozinho na multidão.

Adorado por milhões e mal-amado por quem realmente importava.

O pobre menino rico.

Talvez ele não quisesse ser pop star. Talvez isso, na cabeça de quem é maluco por fama, dinheiro, poder e badalação seja um absurdo, mas talvez fosse a vontade dele. E precisava ter sido respeitada.

A violência tem várias faces e pode surgir dos lugares mais improváveis, muitas vezes se esconde sob a frase “Eu sou seu pai, eu sei o que é melhor para você”.

Existe um egoísmo implícito nessa frase. Mas que ninguém ousa contestar, não é mesmo?

Micheal era brilhante. Dançarino e cantor fenomenal. Foi talhado para o estrelato, foi fabricado, cada mínimo detalhe, roupa, cabelo, gestos, sorriso…foi tão fabricado e tão modificado que acabou virando um monstro.

Talvez por sentir-se preso em seu próprio corpo. Talvez por querer ser uma outra pessoa. Totalmente diferente, com uma vida e uma história diferentes.

De algum modo eu o entendia. E sentia pena.

A fama cobra um preço cruel: a perda de sua identidade - Estão aí: Britney Spears, Michael Jackson, Elvis, Kurt Cobain e muitos outros ícones que se perderam de si mesmos no limbo do estrelato - para provar tudo isso.

Será que vale a pena?  Será que a fama é uma droga que quanto mais consumida mais te afasta da realidade do mundo e de seu verdadeiro eu?

Existe uma dose segura de fama? Qual é a receita?

O que é sucesso, afinal?

Ganhar o mundo e perder sua alma?

RIP MJ.

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Mulheres Possíveis

Ando muito sem tempo. Sério, sorry por isso. Ainda estou formulando um texto legal sobre um certo assunto aí…posto no fim de semana.

Mas enquanto ele não sai, aqui vai um pouco de Martha Medeiros que é sempre genial e cujo texto tem tudo a ver comigo e creio eu, com vocês.

Abraços, saudades

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‘Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, marido (se tiver), telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e-mails.
Faço ainda, revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação!

E, entre uma coisa e outra, leio livros.

Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.

Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.

Primeiro: a dizer NÃO.

Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.

Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.

Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros.

Seu pai e sua mãe acreditem, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.

Você não é Nossa Senhora.

Você é, humildemente, uma mulher.

E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.

Tempo para fazer nada.

Tempo para fazer tudo.

Tempo para dançar sozinha na sala.

Tempo para bisbilhotar uma loja de discos.

Tempo para sumir dois dias com seu amor.

Três dias.

Cinco dias!

Tempo para uma massagem.

Tempo para ver a novela.

Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.

Tempo para fazer um trabalho voluntário.

Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.

Tempo para conhecer outras pessoas.

Voltar a estudar.

Para engravidar.

Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.

Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.

Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.

Existir, a que será que se destina?

Destina-se há ter o tempo a favor, e não contra.

A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.

Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.

Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!

Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.

Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.

E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante’ .

Martha Medeiros - Jornalista e escritora

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O não-amor

Já se falou tanto em amor e paixão… Que tal falarmos do que não é amor ???

Se você precisa estar se relacionando com alguém para ser feliz, isso não é amor. É carência.
Se você tem ciúme, inseguranças mil e é capaz de fazer qualquer coisa para manter um relacionamento  mesmo sabendo que não é amado, isso não é amor. É falta de. Falta de amor próprio.
Se você acredita que “ruim com ela(e), pior sem ela(e)”,  que sua vida fica vazia sem essa pessoa; não consegue se imaginar sozinho e é incapaz de ter vida própria ou seja,  existe em função do outro,  isso não é amor. É dependência.
Se você acha que o ser amado lhe pertence; sente-se dono(a) e senhor(a) de sua vida e de seu corpo; não lhe dá o direito de se expressar, de ter escolhas, desejos, sonhos que não sejam iguais aos seus, isso não é amor.  É egoísmo.
Se você não sente desejo; não se realiza sexualmente; prefere nem ter relações sexuais com essa pessoa, porém sente algum prazer em estar ao lado dela, isso não é amor. É amizade. (ou Frigidez.  Consulte um médico)
Se vocês discutem por qualquer motivo; morrem de ciúmes um do outro e brigam por qualquer coisa; nem sempre fazem os mesmos planos, não tem os mesmos valores; discordam em muitas situações; não tem gostos em comum, nem amizades , são incpazes de fazer concessões um pelo outro, mas sexualmente combinam perfeitamente, isso não é amor. É desejo.
Se seu coração palpita mais forte; o suor torna-se intenso; sua temperatura sobe e desce vertiginosamente, apenas em pensar na outra pessoa, isso não é amor. É paixão. (ou medo. ou dor de barriga, sei lá)

O príncipe encantando não existe. E você lutou para deixar de ser a princesa, anos atrás, lembra-se?

Pois é.

(Quem Inventou o amor, me explique por favor - R. Russo -adaptado por mim)

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Transamerica - latina

Sou uma observadora do gênero humano. Adoro observar pessoas, comportamentos, manias, aparência. Não em tom de julgamento, mas de análise, absorção e processamento das diferenças entre nós.

Observando, somos capazes de compreender melhor o outro. Analisando, pondo-se no lugar de outrem, exercitamos a humanidade em nós.

Ontem, voltando para a casa, presenciei uma cena curiosa no trem.

Logo ao entrar, dei de cara com um casal diferente. O homem, jovem, pinta de cantor de rap, bem apessoado, estava acompanhado de uma morena alta, vistosa, cabelos negros e lisos compridos, boca carnuda, olhos delineados e com cílios bem longos.

Não pude deixar de reparar (e creio que nem os demais presentes) no generoso decote que usava. Estava bem frio e ela usava uma blusa colante vermelha com um generoso decote que deixava à mostra o belo colo de seios fartos, por cima, um pesado casaco de couro.

Pela altura e proporções exageradas, ficava claro que se tratava de um transex.

Ela estava de mãos-dadas com o companheiro e pareciam felizes.

Foi quando fui surpreendida por sua voz grossa, chamando a atenção de um outro homem.

-O que foi? Eu vi você cutucando o seu amigo e dizendo “olha só esse traveco!” - ela disse

-Eu não fiz nada! Eu fiz alguma coisa? - tentava se justificar o outro.

- Se liga, depois leva uma na cara e vai ter vergonha de ter falar que apanhou de um traveco! Eu não te fiz nada, nem te pedi nada, me deixe em paz!

Depois disso, um silêncio constrangedor.

O suposto preconceituoso desceu na estação, deixando o lugar ao lado do transex, vago, onde me sentei.

Pude observar que ela estava bastante perturbada, os olhos marejados, a boca trêmula, fazendo menção de que iria chorar.

Provavelmente havia se sentido aviltada, envergonhada, espinafrada, marcada.

Estava ali uma cidadã normal, voltando de sua jornada diária de trabalho (ela havia comentado algo sobre situações no escritório) com seu parceiro de relacionamento, (não cabe a nós especular qual o tipo de relacionamento que tem), feliz, provavelmente em dia com suas contas, ou talvez devendo uma coisa aqui e outra ali como todo mundo, não se envolvendo com a vida alheia e de bem com a dela mesma.

Mas é claro que pessoas preconceituosas, pobres de espírito, infelizes, amargas, que devem ter uma vida miserável emocionalmente, que mendigam atenção, a mínima que seja, nem que para isso tenham que envolver uma terceira pessoa em suas conversas para se projetar, de tão míseras, ínfimas, medíocres que são, foram capazes de desequilibrar alguém que, emocionalmente, parecia vulnerável e - porque não? - delicada.

Eu senti pena dela. Sério, senti mesmo. Ela estava agindo pura e simplesmente como uma mulher. Pude entendê-la por isso. Quis se defender porque, é raro encontrar (e talvez não houvesse, nem há, na verdade) alguém que tome duas dores.

Mas ela não queria fazer aquilo, não queria PRECISAR fazer aquilo. Só queria chegar ao seu destino, desfrutar da companhia de seu parceiro, aproveitar a viagem. Só quer viver em paz.

Eu vi que ela ia chorar…uma lágrima estava pronta pra cair. Seu companheiro apertou sua mão e pronto, a lágrima escorreu pela face, desnudando enfim sua fragilidade.

Não me contive, tirei da bolsa um pacote de lencinhos de papel e ofereci a ela.

Ela aceitou, com delicadeza e elegância, sorriu, me agradecendo e me olhando nos olhos.

Houve comunhão, identificação, solidariedade, ali houve, humanidade.

Eu juro que quis falar  - “ninguém merece essa sua lágrima, ninguém merece essa sua demonstração de que se importou ou foi abalada de algum modo” -  mas ao mesmo tempo, tive vontade de falar: chore.

Chore porque ninguém sabe quem é você. O que viveu e enfrentou até aqui. Ninguém conhece suas lutas, internas e externas, ninguém te sustenta, te banca, te nutre.

Então, porque diabos alguém se acha no direito de te julgar?

Mas eu não falei.

Mesmo assim, tenho certeza, absoluta, de que ela era uma garota esperta.

E que havia entendido meu recado.

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